Amadeus (Análise)

“Deus meu, Deus meu, há algum compositor mais talentoso do que eu”? Se fizermos essa releitura da icônica frase proferida pela Bruxa Má da Branca de Neve, teremos a premissa na qual o enredo deste magnífico filme de Milos Forman se apoia.

Baseada na vida dos compositores Antonio Salieri e Wolfgang Amadeus Mozart, a narrativa, baseada numa peça homônima de Peter Shaffer, se apoia numa grandiosa licença poética para abordar uma suposta inveja extrema que o primeiro compositor sentiria pelo segundo, um dos maiores nomes da música ocidental.

Começando pela velhice decadente de Salieri, que tornara-se um homem perturbado pelo que fizera ao rival, a cena noturna ilustra o mergulho em sua culpa, quase chegando a suicidar-se. A cena seguinte, apesar de se passar na manhã, é acinzentada nas partes externas, e banhada em sombras na parte interna, em que faz sua confissão a um padre. Apesar de não estar em um confessionário, e sim em seu quarto no manicômio, a profusão da sombra pesa como se estivesse em um.

O que se segue é a abordagem de sua relação com Mozart, o enfurecendo cena após cena com sua criatividade ímpar. Os figurinos de cores claras e suaves de Mozart, apenas não tão orgulhoso quanto carismático, em sua relação de romance para com a arte musical, contrastam com o preto e os tons escuros dos figurinos de Salieri, tão sério e recatado quanto astuto na maneira como começa a pensar em prejudicar Mozart.

Incrível o papel da música na obra, sobretudo na cena onde Salieri pagina as tablaturas de Mozart, e as respectivas músicas começam a ser reproduzidas para nós, trecho após trecho de cada uma; ou na cena onde uma das composições de Mozart é tocada de maneira aparentemente extradiegética, até percebermos, pela chamada da esposa de Mozart , debruçado sobre a mesa – quando este volta a si – que tratava-se de sua mente estudando sua própria composição, que o fazia ficar tão absorto que não conseguiu ouvir a batida na porta.

Com um design de produção impecável, e excelentes atuações, este clássico do cinema merece ser cada vez mais e mais conhecido, tanto quanto as próprias músicas de Mozart, que, para a tortura de Salieri, permaneceram muito mais famosas do que as suas, ao longo da história, o que este mesmo considera sua tortura, após ter planejado tirar sua vida, e assim, “rir por último”, como este mesmo diz, de Mozart e de Deus, por ter dotado um jovem tão tolo de tão magnífico dom.

A reprodução da excêntrica risada de Mozart ao final do filme é enigmática: seria o próprio Salieri rindo de Mozart e de Deus, ou Mozart rindo de sua decadência e tortura, do além-túmulo?

A convicção invejosa quase luciferiana de Salieri é representada muito bem pela arte do cartaz do filme, que o mostra com sua máscara, banhado de preto, parecendo ter toda Viena sob suas mãos, querendo tomar o lugar de Mozart e de Deus. Sua loucura mostra que a religiosidade mimada é pior do que o ateísmo.


Fábio Reis é graduado em Design Industrial

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