Chatô – O Rei do Brasil (Análise)

A produção talvez mais problemática da história do cinema nacional, o filme “Chatô – O Rei do Brasil” começou a ser realizado em 1994, prometido para ser lançado em 1997, tendo sua produção estendida, até ser interrompida em 1999.

Os problemas foram devido à mudança do projeto para algo mais ambicioso, técnica e narrativamente, quando da apresentação do mesmo a ninguém menos que Francis Ford Coppola, o que requeria um orçamento maior. Pressionado pela Ancine, o diretor Guilherme Fontes se viu tendo que terminar o longa o quanto antes. Porém, problemas envolvendo degradação de materiais do estúdio, pela ação do tempo, atrasaram ainda mais o projeto, que, não obstante, ainda não estava do jeito que o diretor queria.

Abusando ao máximo do tempo de que dispunha para terminar a obra, que quase chegou a ser vetada por extrapolar o tempo máximo de produção, Fontes finalmente conclui o longa em 2015 e o lança nos cinemas nacionais.

A jornada de produção do longa, por si só, merece um belo documentário à parte. O resultado, porém, é algo nada menos do que interessante. O filme é uma biografia da vida do magnata das mídias Assis Chateaubriand, considerado o “Cidadão Kane” brasileiro. O roteiro, não obstante, lembra um pouco o do clássico longa de Orson Welles. Contado a partir do final da vida do famoso empresário e jornalista, o roteiro alterna entre as alucinações que o personagem tem, antes de morrer, vítima de um AVC, e as passagens de sua vida, desde sua juventude quando trabalhara como empregado de uma família burguesa até sua ascensão ao império que construiu.

As alucinações são hilárias. Consistem em um julgamento do qual Assis é réu. Mas não um julgamento qualquer, mas um julgamento em um programa de televisão típico da época, onde a plateia é um júri, e tudo é exibido ao vivo para todo Brasil. A referência constante à obra “Os Operários”, de Tarsila do Amaral, evoca um olhar que ganha um caráter de repreensão, por parte de uma sociedade enganada que clama justiça contra a lógica capitalista desumana da qual Chateaubriand foi um lamentável expoente.

É incrível como as cenas relativas à cada fase da vida do empresário são bem curtas, porém, com situações e diálogos enxutos o suficiente para nos fazer entender o que se passa. As belas interpretações cativam-nos, e a rapidez e o dinamismo das cenas evocam a conturbada vida do magnata e sua irrefreável sede de poder.

As dificuldades de produção do longa acabam sendo disfarçadas pelo uso de uma narrativa não-linear. O envelhecimento dos atores ao longo do período de produção também se torna conveniente na abordagem da passagem do tempo dentro da trama. A montagem, portanto, belíssima, acaba sendo um dos pontos fortes do filme.

A fotografia varia de cenas em cenas, proporcionando visualmente um motivo interessante de flashbacks naturais, pois cenas gravadas há cerca de mais de uma década são intercaladas com outras gravadas nessa década. Em caso contrário, a diferença na qualidade das gravações também não fica muito nítida, em razão dos ambientes diferenciados no qual as cenas ocorrem.

O filme choca pela abordagem das relações espúrias de Assis e como ele manipulava as notícias a seu favor, dependendo da publicidade que recebia. Nas cenas onde está com Getúlio Vargas, vivido competentemente por Paulo Betti, a fotografia assume tons mais escuros, talvez porque a relação de ambos mais à frente culminará no suicídio do então presidente do Brasil… isso segundo a obra, que, por sinal, é baseada num livro homônimo de Fernando Morais.

Outro destaque que merece ser mencionado é a atuação de Andrea Beltrão, que vive a socialite Vivi Sampaio. Tão misteriosa quanto sagaz, ela rouba as cenas em que está presente. Gabriel Braga Nunes também está ótimo como Carlos Rosemberg, o jornalista que trabalhava para Assis e que depois, saiu do jornal para fundar o seu próprio.

Não posso dizer nada quanto ao grau de fidelidade da obra em relação à figura real que aborda. Canalha, abusivo, leviano e criminoso são algumas das características desse “grande” homem retratado por Guiherme Fontes. Porém, enquanto história e enquanto cinema, o filme é ótimo. Com exceção da performance de Marco Ricca – que, apesar de interessante, é caricata e me deu a sensação de que o ator estava mais preocupado em imitar bem o personagem real do que em fornecer uma boa interpretação para o mesmo – todos os outros aspectos do filme são dignos de todo aplauso.

A intercalação entre passagens reais da vida de Assis e seus desvarios fornece uma narrativa enxuta, inteligente, sarcástica e crítica, que me surpreendeu profundamente, e me faz perguntar porque o cinema nacional não é mais reconhecido do que é.

“Chatô – O Rei do Brasil” é muito mais do que um bom filme. É uma proeza marcante no cinema e na história nacional. E, para se igualar a “Cidadão Kane”, só falta o “Rosebud”.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial

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