De Amor e Trevas – Análise (COM SPOILERS)

O filme de estreia da atriz Natalie Portman na direção é um primor de sensibilidade e poesia. Baseado nas memórias de Amos Oz, um senhor israelense que vivenciou, na infância, com seus pais, os conflitos entre árabes e israelenses depois da criação do Estado de Israel, o longa foca na condição severa de depressão que acometeu sua mãe, interpretada pela própria Natalie.

Com uma fotografia que alterna entre o verde e o azul, o visual da obra evoca a dualidade descrita pela narração de Amoz ao final da projeção: um sonho alcançado é um sonho decepcionante. O verde da esperança e o azul da pacificação, por estarem em ambientes com uma iluminação dura, deixando muitas sombras, acabam remetendo ao medo e à melancolia. Tendo como pano de fundo a tão esperada independência de Israel almejada pela maior parte de seu povo, que se mostrou ineficaz para sua paz – em vista dos contra-ataques palestinos – a obra traça um paralelo para com a própria vida de sua mãe Fania, que depois de um período de estudos na Europa, tenta fazer a vida voltando à sua terra natal, a qual ouvira que “manava leite e mel”, apenas para, infelizmente, ter que presenciar a perda da maior parte das pessoas que já conhecera em vida.

Sempre vista em vestidos de um tom verde forte, no início, realçando todo o aspecto esperançoso da personagem, ao longo da projeção, os verdes de suas vestimentas vão ficando mais escuros, até estarem cobertos por um acessório preto, e depois, finalmente, se converterem em casacos escuros, quando Fania sucumbe à depressão. A fotografia também vai ficando acinzentada ou escura, conforme o filme passa.

Acompanhamos a luta do marido e do filho cuidando da triste mulher, que, antes, era a mais acalentadora companhia de Amos. Fania recheava os momentos singelos com o filho com parábolas que ela contava, que quase sempre terminavam em suicídio do personagem central, sempre com uma lição a se aprender em cada uma delas. Os personagens, na verdade, representavam ela própria. As lições vêm em diálogos cativantemente controversos, como “É melhor ser sensível do que ser honesto”, evocando o despertar da consciência para um nível de estado emocional que, se não nos elevam à concordância, pelo menos nos exortam à compreensão serena e humilde do que pode levar um ser humano a se suicidar.

O filme transborda de diálogos inteligentes, relacionando a origem de várias palavras do hebraico entre si, abordando uma maneira de compreender a essência das coisas, da vida e do ser humano. Totalmente falado em hebraico, Natalie se empenhou em buscar a maior fidelidade possível à essência da obra, tal qual Mel Gibson em relação ao aramaico em “A Paixão de Cristo” e Angelina Jolie em relação ao khmer no recente “Primeiro, Mataram meu Pai”.

Com visões e cenas alegóricas, a história transita entre realidade e metáfora. No final, quando Fania literalmente dança com a personificação da morte é de ir às lágrimas. A expressão relutante e suavizada do rosto de Portman mostra o quão excelente atriz ela é. De origem israelense, naturalizada americana, não é difícil entender o interesse de Natalie pela obra de Amos Oz. Não posso dizer nada quanto à fidelidade à obra literária, mas enquanto cinema, Natalie nos entrega uma direção competente e precisa, encantando-nos com sua sensibilidade, e (por que não?) honestidade, ao retratar uma obra tão importante do ponto de vista histórico e dramático.

Para mim, uma pequena obra-prima, e espero que seja o primeiro de muitos filmes que ainda quero ver dirigidos por essa moça.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial

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