O Cartoon Network da minha infância

Desde que me lembro, sempre fui uma criança fascinada por desenhos animados. No primeiro apartamento que me lembro de ter morado, eu não possuía ainda TV a cabo. Minhas experiências audiovisuais dessa época foram regadas à muita TV Cultura, com seu Castelo Rá-Tim-Bum, Cocoricó e Pingu, além das manhãs de desenhos no SBT.

A primeira vez que tive contato com TV a cabo foi quando eu e meus pais fomos visitar o meu avô, como sempre fazíamos regularmente quando morávamos no Rio de Janeiro. Ao chegar lá, alguém me apresentou a um canal que transmitia séries de desenho animado 24 horas por dia. Se isso já não fosse surpreendente o suficiente para mim, as vinhetas cativaram meu imaginário de tal forma que naquele dia, ao voltar para casa de ônibus com a minha mãe, vinha pensando naquelas vinhetas que eu havia visto, com personagens indo de um lado a outro do cenário em um fundo todo quadriculado, enquanto letras enormes anunciavam os programas. Assistir desenhos na TV aberta era uma coisa, mas ver um canal cuja identidade visual refletia todo aquele universo dos desenhos clássicos, era uma experiência ainda mais divertida.

Cada bloco do padrão quadriculado presente nas vinhetas era girado, revelando algum elemento reconhecível de algum desenho específico, como, por exemplo, a latinha de espinafre do Popeye, ou de gags típicas de cartoons em geral, como, por exemplo, bombas, dinamites e bigornas. Aquela era a Era Checkerboard.

Posteriormente, o canal passou por uma mudança de identidade visual, indo à sua melhor fase: a Era Powerhouse. Geralmente, com vinhetas com um fundo de uma cor única em um suave degradê, os títulos dos programas eram apresentados em letras alaranjadas. Piadas típicas de cartoons clássicos dos anos 50 eram exploradas, apresentando de maneira super criativa os programas que viriam a seguir, na série de vinhetas “Daqui a Pouco…”, tendo por tema a música que dá nome à era, Powerhouse, um jazz composto por Raymond Scott, muito utilizado nos curtas dos Looney Tunes em cenas de fábricas, e que se tornou definitivamente popularizado pelas vinhetas do canal.

Essa identidade também trouxe uma nova abordagem ao canal não só em termos gráficos mas de conceito. Era comum comerciais que mostravam as personagens clássicas da Hanna-Barbera esbarrando nas personagens originais do Cartoon Network, num ambiente realista onde o Cartoon era uma empresa na qual trabalhavam. Se o crossover não fosse o suficiente para cativar nosso imaginário, era hilário ver os personagens se constrangendo com suas particularidades em situações típicas da vida real, como super-heróis tendo que andar de avião, Aquaman fazendo compras no Supermercado tentando se comunicar com um peixe morto, ou ainda, Zé Colméia sendo barrado por não ter crachá, como se uma personagem mundialmente famosa como ele precisasse disso.

É dessa mesma época as principais séries de comerciais temáticos que faziam dos intervalos comerciais do canal tão bons de assistir quanto os próprios programas, como o “Biografia Toon”, que contava a “vida real” das estrelas do canal, e como perseveraram para se tornarem famosas, no maior estilo “The E! True Hollywood Story”; o “Lição Toon”, que dava lições de moral inspirados em alguma cena de algum desenho, ou ainda os clipes musicais divertidos que faziam uma releitura visual das personagens clássicas da Hanna-Barbera.

O humor auto-satírico; as personagens interagindo com o ambiente, de maneira a apresentar os programas de maneira visualmente criativa; a grande variedade de programação, que levou o canal a ter vários blocos, como o “Toonami” (voltado a animes); o “Talismã” (voltado a desenhos de ação); o “Boomerang” (voltado aos clássicos da Hanna-Barbera, que viria a se tornar um canal à parte); a “Hora Acme” (com clássicos da MGM e da Warner); e o “Cartoon Cartoons” (com as produções originais do canal), com uma abertura tão legal que era uma obra de arte à parte, abrilhantando os finais de semana… Tudo isso consagrava o canal como um dos mais nitidamente bem feitos para entreter crianças e adultos do que jamais vi.

É… Essa época não volta mais. O Cartoon de hoje não lembra nem de relance a criatividade dos anos dourados que um dia teve. Depois de migrar para a Era City em 2004, ainda apresentando vinhetas criativas, ainda muito galgadas no conceito da Era Powerhouse, de colocar todas as personagens no mesmo universo – naquele caso, trabalhando numa mesma empresa; depois, sendo vizinhos numa grande cidade onde todos moravam juntos – a programação, porém, foi perdendo variedade; até ir para as Eras Toonix e a atual Check It, em que perderam totalmente a vontade de fazer dos intervalos comerciais momentos memoráveis. O antigo slogan “O melhor lugar para cartoons”, que calhava muito bem ao que o canal realmente era, agora não existe mais… como se os próprios realizadores do canal soubessem que ele deixou de ser aquilo que ele era… o melhor lugar para cartoons.

Devo muito da minha infância às alegrias de ficar assistindo ao canal, e, se hoje sou cinéfilo, isso deve-se principalmente a três grandes estúdios: Disney, Pixar e Cartoon Network, que forneceram a mim minhas primeiras experiências audiovisuais, que encaminhariam minha contemplação artística para sempre.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

 

 

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