Os Heróis de Sanjay (Curta-metragem) – Análise

No decorrer de minha vida, em muitas conversas – sobretudo, ao ouvir sermões em igrejas – sempre ouvi a palavra “entretenimento” sendo usada principalmente de maneira jocosa, como que remetendo à distrações fúteis. Entretanto, o significando puro da palavra tem mais a ver com “envolvimento”. Assim como a fé religiosa envolve o espírito em um consolo de uma realidade intangível, aquilo que se considera “cultura popular” cativa nossa alma, recheando nossa existência de vida.

Um dos mais recentes trabalhos da Pixar foi o curta-metragem “Os Heróis de Sanjay”, onde religião e entretenimento se confundem. Baseado numa história “em parte” real – como brincam os créditos iniciais – o filme aborda um pouco da relação real do indiano Sanjay Patel – hoje, animador da Pixar – com seu religioso pai.

Num ambiente tomado pela monotonia das cores branco e marrom, vemos seu pai em seus rituais religiosos diários de meditação, num altar que fica no canto da sala. No outro canto, seu filho, segurando um boneco de super-herói, está com os olhos brilhando, enquanto assiste à sua série animada favorita, regada a elementos multicoloridos vívidos.

Incrível como os elementos em cena estão posicionados de maneira a estabelecer o distanciamento emocional entre pai e filho. Não à toa, estão voltados a cantos opostos na mesma sala. O menino, para sua TV; o pai, para o seu altar. Totalmente alheios à beleza dos momentos um do outro, disputam o volume do áudio da TV. Quando o pai finalmente exerce mais autoridade, o filho obriga-se, relutante, a fazer suas orações perto de seu pai.

O que vem a seguir, é um momento mágico de imaginação e arrebatamento de espírito. Não sabemos exatamente no que consiste a meditação do pai, mas a mente do filho, pelo menos, é tomada por um misterioso lugar sobrenatural. Banhado a um efeito de iluminação pastel e com cores pulsantes de néon – similares ao da sua série animada – Sanjay se vê envolto por três divindades hindús, lutando contra o mal, tal qual os heróis que vê na TV. Após lutar com seus “novos amigos”, ele descobre uma maneira de “voltar para casa”.

Sanjay retorna à realidade transformado, aprendendo a conciliar sua imaginação lúdica com a fé religiosa . O pai, inicialmente frustrado ao ver o filho ir desenhar, torna-se interessado quando o filho lhe mostra o que desenhou. Pela primeira vez, os vemos juntos, pertinhos um do outro, ao centro do plano, compartilhando suas ideias.

Incrível como me vi refletido naquele Sanjay. Apesar do contexto e da geografia diferente em que a história se passa, a essência da história é universal. Pela minha realidade de cristão protestante ocidental, vi as minhas empolgações diárias à frente da TV refletidas naquele menino indiano.

Filho de uma mulher que se tornaria pastora evangélica, com muito orgulho, não foram poucas as vezes em que fui repreendido para sair da TV ou do que quer que estivesse fazendo, para ir fazer uma oração.

Agora, já adulto, percebo mais do que nunca como essas repreensões impediram que eu ficasse distraído demais, ao mesmo tempo em que minha paixão pelo audiovisual gradativamente me trouxe novos conceitos para refletir e trabalhar minha fé, assim como minha fé coopera para minha seleção audiovisual.

Entretenimento e meditação tornariam-se praticamente sinônimos. Para a mente de um cinéfilo e religioso sensível, toda meditação projeta imagens à mente, assim como todo plano da câmera em um filme evoca pensamentos e proporciona a meditação. A distinção entre ambos perde o sentido em algum momento. E Deus seja louvado por isso!

Fábio Reis é graduado em Design Industrial

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *