Star Wars: Os Últimos Jedi (Análise COM SPOILERS)

Depois dos eventos de “O Despertar da Força”, Rey encontra Luke numa ilha para lhe entregar seu antigo sabre-de-luz e poder ter a chance de um treinamento nas artes Jedi. Porém, a reação do agora já mestre Jedi ao ver a jovem é mais inesperada do que nunca. Aliás, se existe uma palavra que possa caracterizar esse oitavo capítulo da saga Star Wars, sem dúvida, não é “previsível”.

O jovem esperançoso Luke, depois de 30 anos desde os acontecimentos de “O Retorno de Jedi”, agora é um velho angustiado, assombrado pela ideia de que seu único pupilo Ben Solo voltou-se para o Lado Negro da Força. Pelo menos, é o que acreditamos desde o filme anterior, mas talvez Luke tenha antecipado suas conclusões com relação ao destino de seu aprendiz, se deixando levar por um excesso de zelo fatal que, ao invés de evitar o mal de acontecer, acabou por selar de vez o destino sombrio de Ben, agora Kylo Ren. Conflito esse que ele não teria, se não fosse um Jedi e, portanto, não tivesse nenhum senso premonitório.

Assim, esse filme se diferencia dos demais por enfatizar as vulnerabilidades dos dogmas da Ordem Jedi, que, se são relevantes, não são perfeitos. Isso acaba por retirar a aura de representação da essência da bondade sempre presente na nossa percepção da mesma. Ecoando os dilemas morais que foram introduzidos na saga em “Rogue One”, esse episódio se destaca por uma discussão mais madura e ampla dos caminhos da Força.

A fotografia incrível sacramenta a ilha em que habita Luke, com planos majestosos que mostram uma imensa montanha bem iluminada. As criaturas novas que aparecem neste filme também são muito interessantes, sobretudo, os porgs, bichinhos fofinhos que se infiltram em vários lugares, em conjunto.

Este é o filme visualmente mais lindo da saga, com paisagens naturais bem filmadas, dando um ar contemplativo ao filme, nunca antes visto na saga, para abordar as meditações de Rey na Força. Aqui vemos novas possibilidades de uso da Força que excedem os poderes meramente de combate. Inclusive, isso é abordado de maneira bem-humorada em um diálogo do filme. O filme também brinca com as expectativas em torno dele mesmo, para burlar todas elas, como o fato de Luke não chegar a ser exatamente um mentor na Força para Rey; pelo contrário, ele quer dissipar todo e qualquer novo desenvolvimento de alguém na Força, para evitar catástrofes que só poderiam ser provenientes do uso dela. Dessa forma, esse filme mostra uma dimensão de conhecimento que pode ser alheia aos distintos extremos de uso da Força representados pela Ordem Jedi e pela Ordem Sith, que representam o Bem e o Mal. A verdade é que o Mal não está confinado somente ao que a Ordem Sith representa, nem o Bem está limitado aos dogmas dos Jedi.

O filme também é inteligente nos efeitos narrativos que emprega, intercalando planos de Rey e Kylo Ren conversando entre si como se ambos estivessem no mesmo ambiente, nas cenas em que se comunicam através da Força. A iluminação pálida sobre Kylo Ren e o reflexo do fogo sobre Rey não só evocam as intenções opostas entre os dois, como também reforçam visualmente que estão em ambientes diferentes.

Além disso, o piloto Poe Dameron ganha maior destaque neste episódio, abordando-o como um rebelde que, ironicamente, é rebelde com relação às ordens de sua superiora, a general Leia Organa. Se Leia aparece muito pouco no filme anterior, neste, ela ganha um enfoque digno que dá um bom desfecho à personagem, ao mesmo tempo que homenageia a atriz Carrie Fisher, que nos deixou ano passado. Leia finalmente usa a Força de maneira memorável, cuja sensibilidade só havia sido brevemente mostrada na trilogia clássica. Finn continua bem e entra numa aventura à parte com uma nova personagem, com quem cria uma interessante relação.

A mitologia da franquia é expandida, mostrando uma pequena estante numa das cavernas da montanha, onde consta a literatura dos fundamentos da Ordem Jedi. A recusa de Luke em treinar Rey é conveniente para ressaltar o autodidatismo da mesma, que encontra seus próprios caminhos e acaba por descobrir o dilema moral entre Luke e Kylo Ren.

Qual dos dois foi para o Lado Negro primeiramente, ainda que por um momento: aquele que sucumbiu às trevas pela decepção com o próprio mestre, ou o mestre que se achou no direito de assassinar seu pupilo por um suposto bem maior? Esse dilema torna os dois personagens interessantemente complexos. O Luke que antes poupou seu pai da morte para se arriscar a levá-lo ao lado da Luz, agora se vê na iminência de um possível novo caos na galáxia, e para evitar isso, deixa-se levar momentaneamente por uma indulgência ao código de conduta de nunca matar, a não ser por legítima defesa.

O bom é que, assim como Luke desiste de cumprir o que havia proposto em seu coração, Kylo Ren também não consegue cumprir a missão de atirar na nave de sua mãe, mais uma vez ressaltando a ambos os personagens a sedução pelo Lado Bom da Força, ao passo que as trilogias anteriores ressaltavam o contrário. No caso de Luke, um desejo sombrio para destruir o Lado Sombrio (cabeças explodindo).

Além de ser inovador em suas resoluções, o filme ainda consegue fazer rimas narrativas com os filmes anteriores, como o fato de Rey lidar com seu interior da mesma forma que Luke luta contra um espectro de si mesmo em Dagobah em “O Império Contra-Ataca”, ou numa cena final em que o Líder Supremo é derrotado pelo seu próprio aprendiz, assim como Darth Sidious em “O Retorno de Jedi”. O terceiro ato, diferentemente dos demais filmes, onde havia sempre duas grandes batalhas acontecendo – uma, em um planeta, e outra, no espaço – além de um duelo de sabre de luz, aqui dá lugar aos dois personagens centrais defendendo-se entre si para lutar contra outros. O convite de Kylo a Rey também nos faz lembrar do convite de Anakin a Padmé no final de “A Vingança dos Sith”.

Apesar disso, o filme tem suas fragilidades, como o furo de Luke estar querendo conservar uma biblioteca que nem mesmo ele leu direito, ao mesmo tempo em que reconhece que a Ordem Jedi é ultrapassada. Apesar disso, a aparição de Yoda é emocionante e bem-humorada, tal qual o personagem era na trilogia clássica. A decisão por uma representação gráfica de Yoda galgada no design do puppet usado originalmente foi muito acertada.

Após o dilema moral apresentado, enfim, quando Kylo decide que não quer seguir nem a Ordem Jedi, nem a Ordem Sith, mas uma direção galgada em seu ego, Rey é incapaz de seguí-lo neste caminho, e é aí que, apesar da desconstrução do idealismo Jedi apresentado neste filme, ele retorna a sua dualidade original, numa resolução incrível. Também vemos um Luke ainda mais poderoso do que Mestre Yoda.

Além das novas possibilidades da Força, os embates com sabre-de-luz mostrados neste episódio também exploram novas formas de uso do mesmo, com manejos mais improvisados do que as coreografias de luta bem delimitadas da segunda trilogia, o que mostra a inexperiência dos protagonistas, de maneira eficiente.

Se “O Despertar da Força” apoiou-se numa estrutura narrativa semelhante à “Uma Nova Esperança”, servindo para reapresentar o universo da saga a um novo público, “Os Últimos Jedi”, por sua vez, desvencilha-se de qualquer tentativa de ser a continuação de um reboot, e desenvolve os conceitos estabelecidos da franquia, levando-nos a um novo patamar na saga. Os livros queimados por Yoda aludem à ascensão de uma nova percepção sobre a Força. Quem diria que o conservador império de Mickey proporcionaria à saga criada por George Lucas uma desconstrução de sua arquetipia básica. Assim como, por exemplo, o Cristianismo foi um avanço em relação ao Judaísmo ortodoxo dos tempos bíblicos, a Ordem Jedi é o “Antigo Testamento” que deve dar lugar a algo novo que só Rey poderá nos dizer o que é. E estamos ansiosos por descobrir. Que a Força esteja com você, Rey!

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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