The Good Place – Netflix (Análise – Temporadas 1 e 2) – Com alguns SPOILERS

“Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar”.

A essência dessa frase de William Shakespeare poderia muito bem sintetizar a premissa dessa hilária série de comédia produzida pelo Netflix, que já deve ser uma das séries mais inteligentes e instigantes da atualidade.

Criada por Michael Schur, a série nos apresenta Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), uma mulher nada educada e gentil, que, ao morrer, vai teoricamente para o Lugar Bom, como é chamado o ambiente pós-morte no qual se encontra. Ela conhece o anjo Michael, uma espécie de anfitrião do Lugar Bom, que através de cenas divertidas, apresenta a ela como funciona o lugar. O que ela estranha desde o começo é porque ela está ali, já que tem consciência de não ter sido uma pessoa tão boa assim.

E é a partir daí que começam os conflitos da série. Como no Lugar Bom toda pessoa tem uma alma gêmea, ela conhece a sua (é, parece que no universo da série, as pessoas ainda podem ter a possibilidade de ter relações conjugais); no caso, Chidi, um professor de Filosofia e Ética, que ao ouvir Eleanor dizer que não merecia estar ali e que devia ter acontecido alguma falha no “sistema” de condução das almas, começa uma jornada para lhe ensinar as principais teses sobre moral e ética para fazer dela uma pessoa melhor. Ideias de vários filósofos são exploradas, como Platão, Immanuek Kant e Soren Kiekergaard, por exemplo.

Ao conhecer outros personagens, como a irritantemente sempre agradável Tahani, e seu marido, um aparente monge budista que depois se revela ser um cara de baixo QI que tentou uma carreira como DJ, e que também parece estar ali “por acidente”, a história da série avança, e começa uma série de questionamentos e descobertas sobre como tudo ali funciona e porque e como foram parar ali.

Falar mais do que isso seria entregar spoilers demais dessa série, que conta com absurdas reviravoltas quase que a cada episódio, sendo viciante assisti-la. A alta dose de plot twists faz dela uma série absurdamente criativa narrativamente. Todos os personagens são suficientemente carismáticos, apesar de um pouco caricatos, o que não chega a ser ruim dentro da proposta absurdamente cômica da série. Ted Danson dá um show de interpretação como Michael, cujas reais intenções são questionáveis, e que pra quem pretende acompanhar a série, basta dizer isso. Kristen Bell é uma protagonista com quem nos cativamos facilmente, em sua insegurança tentando entender o universo no qual agora habita.

Com uma fotografia sempre clara e agradável, o “Lugar Bom” é retratado de uma maneira carismática. As casas se adaptam totalmente aos gostos dos moradores; uma das paradas hilariamente obrigatórias das almas é uma loja de frozen yogurt; e ainda há o dia de praticar a habilidade de voar, com trajes específicos que lembram os de desportos radicais. Com um design de produção modesto, porém de qualidade, a série se permite criar um universo particular, sem exageros, se permitindo aqui e ali utilizar-se de efeitos especiais para representação dos elementos mais fantasiosos do lugar, mas mantém o tom convencional de uma sitcom.

À medida que vamos acompanhando os heróis em sua jornada de redenção no além, nos afeiçoamos cada vez mais a eles. O ritmo de piadas é intenso, chegando até a incomodar em certos momentos, mas todas hilárias. Diálogos engraçados e inteligentes permeiam toda a série, ora assumindo a despretensão total, ora assumindo um tom de crítica social. Além de nos fazer rir, a série nos faz refletir sobre a autenticidade das boas ações e questões relacionadas à lógica de compreensão da Ética, dentro desse universo espiritual, que, aliás, não procura se apoiar diretamente em nenhuma visão religiosa específica, chegando a nem mencionar Deus ou Satã ou qualquer figura de nenhuma visão religiosa existente. A primeira conversa entre Michael e Eleanor, por exemplo, quando ele diz algo sobre quem ou que grupo humano “acertou mais” acerca do Paraíso, é de uma acidez crítica humilde que fará talvez só as pessoas mais serenas e religiosamente menos extremas rirem. Eu tive o prazer de rir.

Com exceção de uma cena de humor negro bem desnecessária em um certo capítulo da segunda temporada, a série é bem acessível por pessoas de todas as idades, salvo exceções de compreensão de algumas piadas para crianças. Apesar disso, a série tem classificação indicativa para 16 anos.

Deliciosamente divertida, “The Good Place” é algo que deveria existir em algum momento na história do entretenimento. O teor unilateral da noção de Céu e Inferno, de tão ambivalente, é cômica, o que rende vários questionamentos de ordem moral e até teológica, se preferir.

Eu, particularmente, senti que a série me tocou bastante, por tornar leve e humana uma discussão que já foi a causa de tantos males psíquicos e sociais ao longo da História: o destino da alma e a noção de um lugar de sofrimento eterno, um dos dogmas mais controversos dentro da História da religiosidade, o qual sempre foi motivo de questionamento sadio para mim, desde pequeno, como cristão protestante.

Portanto, além de entreter e nos fazer rir, a série nos faz analisar a nós mesmos, nossas atitudes e anseios na vida. Poucas sitcoms tão autodepreciativas fazem isso.

PS: O diálogo em que Michael menciona as causas que levam uma pessoa ao Lugar Ruim: dentre elas, dar falso testemunho, incendiar a casa de alguém e… tirar a meia em um vôo comercial, é de gargalhar até cair para trás.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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