The Meyerowitz Stories (Netflix) – Análise

Quando o patriarca da família Meyerowitz, Harold (Dustin Hoffman) começa a passar mal às vésperas de uma exposição de suas obras conseguida por dois de seus filhos, o filho mais bem-sucedido é obrigado a fazer uma visita, e é aí que velhos desentendimentos dessa família desajustada voltam à tona, nessa divertida comédia dramática dirigida por Noah Baumbach.

Dividida numa estrutura de capítulos relacionados a cada um dos três filhos Meyerowitz – Danny (Adam Sandler), Matthew (Ben Stiller) e Jean (Elisabeth Marvel) – conhecemos a inusitada e frágil relação desses três irmãos que possuem uma série de frustrações entre si, resultado de uma formação frágil marcada pela ausência do pai. O enredo não é muito novo, nos fazendo lembrar de outras comédias como “Linhas Cruzadas”, mas aqui o roteiro é inteligente ao nos fazer conhecer em detalhes a personalidade de cada personagem através de diálogos avulsos que sutilmente evidenciam os egoísmos, a impaciência e até inveja das personagens.

O roteiro é sagaz ao estabelecer relações em algumas cenas, que, depois, são desconstruídas em outras, como o fato de Danny ser mostrado como um pai muito querido por sua filha – o que, de fato, ele é – e com quem tem uma ótima relação, porém, depois, o vemos frustrado por ter que se separar dela (ela mora com a mãe divorciada); ou como Jean, que apesar de ter uma personalidade introspectiva, mostra-se mais sábia do que os dois irmãos ao final; ou como Matthew, que, a despeito de ser mostrado como o filho preferido de Harold, por ser o mais bem-sucedido, descobre que a escultura do seu pai batizada em seu nome se deu por um equívoco de memória deste, sendo que quem estava presente era Danny.

Os diálogos hilários em que duas personagens conversam entre si, porém cada uma não responde as questões da outra; além da ênfase por parte de Matt de que Danny e Jean tratam-se de seus MEIO-IRMÃOS e não irmãos (como se o nível de afetividade do primeiro grau de parentesco tivesse que ser necessariamente menor do que o segundo); bem como algumas falas de Harold, que soam como textos de senso crítico artístico sendo lidos em voz alta, ecoando sua visão de mundo, que, ironicamente em nada contribuem para a edificação familiar, são pontos que transmitem muito bem o caráter desconexo e ilusório de certas experiências humanas.

Esse caráter ilusório é ressaltado pela afeição que os filhos acabam nutrindo pela enfermeira, simplesmente por ser alguém da qual, de certa forma, a vida de Harold depende. Pelo menos até que esta tenha seu turno de férias e seja, quase cinicamente, substituída por outro encarregado… O que torna Harold quase que como uma demanda casual mais do que um ser humano com quem se possa estabelecer algum sentimento, estando este passando possivelmente pelos estágios finais da vida. Algumas frases ditas por Danny, como “como você pode ir viver sua vida enquanto meu pai fica em coma?” sintetizam a ideia que o filme quer passar, que tem a ver com o dilema profissão X afeição, que é estabelecida desde o início do filme, quando os artistas da família são tidos como pessoas que seguiram a paixão em detrimento da estabilidade financeira, e o único bem-sucedido da família é justamente aquele que não trabalha no ramo artístico.

Os figurinos evidenciam a personalidade bem particular de cada personagem: o homem de negócios formal e sério Matt, sempre de terno ou roupas escuras; a introvertida Jean com um sobre-tudo e uma calça, o que a cobre dos pés à cabeça, como se ela literalmente estivesse querendo se esconder do mundo; e o divertido Danny que usa casaco e bermuda, algo totalmente inverossímil, e que evoca a incongruência de ser alguém de talento, porém, desajustado. Danny é alguém que poderia ter tido prestígio como músico se não tivesse desistido de perseguir este sonho, o que é sempre apontado por Harold, e seu bigode é apenas mais uma característica física que talvez tenha o propósito de evidenciar sua decadência como profissional.

Apesar disso, o momento onde vemos os três irmãos mais soltos é justamente numa cena onde ele toca seu piano, mostrando que, se ele não é um músico mundialmente conhecido, pelo menos seu hobby serve para proporcionar momentos familiares memoráveis.

A “revelação” de um veterano

“The Meyerowitz Stories” foi aplaudido no Festival de Cannes, sobretudo pela ótima atuação de Adam Sandler, que, como sempre, ao aceitar uma oferta de um diretor para atuar num filme que não foi concebido pelo próprio Sandler, se sai muito bem. Tendo em vista a vergonhosa decadência nas produções da Happy Maddison (produtora de Sandler), é sempre um refrigério vê-lo atuar legitimamente, e espero que ele faça mais filmes que não sejam os típicos “filmes de Adam Sandler”, que, desde o excelente Click, não cansou de trazer besteiróis que até uma criança de 7 anos acharia imaturo.

Outra proeza foi reunir um inspirado Sandler a um também ótimo Ben Stiller, dois dos mais populares comediantes norte-americanos. O “monstro” Dustin Hoffman também está hilário como o excêntrico pai, e a grande Emma Thompson despensa comentários como a madrasta riponga dos filhos.

Agora é torcer para que o filme consiga indicações ao Oscar, e contribua para trazer prestígio não só a Adam Sandler como possível indicado a Melhor Ator (algo que estou ansiosíssimo para ver) e para Netflix, como a mais versátil das produtoras atualmente e que encontra resistência por parte de Hollywood por não produzir cinema para salas de cinema.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *